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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Saudade dos meus irmãos

Saudade de ir buscar a TV pra mamãe quando o "Favinho" nasceu, é a primeiro lembrança clara que eu tenho de ter um irmão,
Saudade de pular o muro, "panhar uma goiaba" e ir pro clube,
Saudade da Eni nos protegendo,
Saudade do Anglo, da Vila, do Solimões e da Cidade,
Saudade de jogar bola no quintal de casa,
Saudade das Olimpíadas, da Colônia de Férias, dos Carnavais no Ipê
Saudade das turmas de todos do colégio,
Saudade de andar de skate, construir campo de baseball, brincar de esconde-esconde, montar bombas caseiras e capturar cigarras,
Saudade dos aniversários temáticos com infinitas crianças em casa pra lá e pra cá,
Saudade até das brigas, quando ainda tinham que se juntar para brigar com o irmão mais velho,
Saudade de ensinar o Tchelo a dirigir,
Saudade das cartas que recebia do Tchelo quando saí de casa,
Saudade da cumplicidade com o Flavio nos momentos difíceis em Sampa,
Enfim, saudade de vocês, meus queridos irmãos. E obrigado a vocês, nossos pais, por ter proporcionado e continuar fazendo questão da nossa proximidade mesmo com a distância que a vida moderna nos impõe.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Jovem casal

É hora do almoço, pausa sagrada
Ambos com uniforme do colégio
Brigam por um celular
Não comem nem a salada

Ela emite sinais de afeto e carinho
Ele só tem olhos para a tela
Troca senha, twita e dispara torpedos
Em vão ela manda um beijinho

Coca Normal e Coca Zero
Hoje é quarta-feira
E daí?
Nada de papo até aqui

Pouco proseiam, teclam em demasia
O strogonoff chega
Ninguém nota, esfria
Juventude conectada e vazia

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Mudanças de uma vida

Em números, friamente, é a quinta vez que muda de cidade, décima oitava de endereço completo com CEP. Em pouco mais de 30 anos de vida, as médias são, aproximadamente, 1 cidade a cada 6 anos e 1 casa/apartamento a cada 2 anos. Nômade parece o apelido mais apropriado, embora nunca tivesse sido efetivamente empregado. Apelidos, aliás, também merecem registro estatístico - somam 4 no total.

Nasceu em Foz do Iguaçu-PR, divisa com Ciudad del Este-Paraguai (na época Puerto Stroessner) e Puerto Iguazu-Argentina. Foz é uma cidade pequena, mas com inúmeros encantos. Paraíso do comércio internacional praticamente livre de impostos, santuário da Mãe-Natureza e grande produtora da energia que move o país são adjetivos que a engrandecem a ponto de ser definida, de certa forma, grande. Ali teve infância e adolescência intensamente vividas, personalidade definida e objetivos, embora não muito claros, traçados.

O vestibular se aproximava e uma solução drástica era necessária, mudar de cidade pela primeira vez. Uberaba-MG, triângulo mineiro, terra do gado zebu e do temido colégio Zé Ferreira. De segunda à sábado, sendo que duas vezes por semana em dois períodos, esse foi o ritmo de estudos durante todo o ano de 1996. Exercício físico apenas uma vez por semana, almoço com avós paternos outro dia e estudar muito, era basicamente a agenda de uma semana típica. Além da Expozebu, tradicional evento que agita a cidade anualmente em maio, não teve muito tempo para explorar o que o berço dos seus pais tinha a oferecer, já era tempo de seguir para a próxima escala.

Campinas-SP era, no início de 1997, para alguém vindo do interior do Paraná, a síntese da cidade grande: Oferecia de tudo, inclusive um punhado de medo aos que vinham do interior. Junto com a primeira semana, veio o primeiro assalto, bastante animador para alguém na casa dos 17 anos de idade. Campinas lembra em parte a capital do estado onde nasceu, sociedade fechada, elitizada, que não se considera do interior. Se a capital é São Paulo, teria ali um braço de mar? A cidade teve papel importante, decisivo em sua formação como pessoa e profissional. Ali construiu laços eternos de amizades verdadeiras. Ali também, no centro da cidade, encontrou os primeiros desafios da vida: pela primeira vez estava realmente sozinho, o primeiro emprego, a primeira perda (http://bit.ly/c5axLv), inúmeras decisões e muito crescimento.
Em cidade grande tudo acontece muito rápido e, quando menos esperava e nunca imaginara, Campinas ficara pequena. Haviam, então, apenas duas alternativas: Anhanguera ou Bandeirantes, ambas com um único destino, São Paulo-SP. A cidade em si já não assustava no quesito tamanho mas desafiava, incentivava a levar sua vida, principalmente profissional, a um outro nível. A capital paulistana fervilha como poucas outras no mundo e, me perdoem os fãs da Big Apple, é de fato e de direito a cidade que nunca dorme. Quando já não achava possível formar outra turma de amigos como outrora em Foz e Campinas, veio a grata surpresa de novas amizades para a vida toda

Viver longe da família de sangue o fez contabilizar, até aqui, três ou quatro outras famílias por pura escolha, afinidade. A certeza de não se sentir só em vários cantos do mundo é resultado de amizades bem aproveitadas, vidas compartilhadas e histórias pra contar (http://bit.ly/cD18Sd).

Mas a vida, assim como o futebol, é uma caixinha de surpresas. Quando as mudanças pareciam não ter mais um porquê, eis que o sentido é criado e novas mudanças pintam. Embora não exista mudança similar à anterior, essa última tem motivação muito distinta de todas as outras. Enquanto estudos e objetivos de cunho profissional nortearam as andanças até aqui, o coração resolveu tomar as rédeas da situação e, de certa forma, selar o destino. Belo Horizonte-MG é famosa por seus morros e bares, assim como pela hospitalidade e "jeitim" do povo mineiro. É a "roça grande" (palavras de uma nativa muito especial), tem praticamente de tudo que uma grande metrópole oferece com resquícios daquele ambiente agradável de cidade de interior. Pouco a descrever sobre a nova cidade que escolheu, uma vez que ainda faz uso intenso de GPS para ir e vir. Entretanto, a certeza que terá muito tempo para conhecer a terra que, em breve, será berço de sua família.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

que lugar é esse?

É como se de repente trocassem as mãos das ruas, bairros novos tivessem brotado onde não parecia haver espaço, novos viadutos cortassem as principais avenidas, agora bem mais amplas, bonitas e funcionais. Aquele "caminho da roça" não existe mais como outrora, faz-se necessário encarar alguns semáforos adicionais, além de um desvio a três quadras do destino final, fruto de uma nova praça recém-inaugurada no centro. Virou cidade grande, oficialmente denominada região metropolitana. Não é difícil ouvir que nos horários de pico uma ou mais ruas ficam intransitáveis. Quase que sem querer, a cidade já tem até mesmo um anel viário formado por algumas rodovias estaduais, como as marginais já foram um dia para a capital paulista, papel hoje que cabe ao Rodoanel Mário Covas.

Alguns anos para o cérebro geram impacto similar ao que se sente nas pernas durante as peladas ocasionais, falhando em momentos decisivos. "Vou subir a próxima rua e chego na avenida". Esquece, a próxima rua não sobe mais, ou sequer nunca subiu de fato. Sete anos de vida intensa ali mesmo vividas parecem não valer nada diante dos cinco de ausência. Está ali pertinho, no inconsciente, mas parece embassado. A idade pesa pra todo mundo, e a cidade definitivamente cresceu demais.

Curioso é lembrar como em pouco tempo ela transitara entre gigante, grande, média, pequena como um ovo e agora voltara ao normal, grande, imponente, importante. Era gigante com postos de gasolina self-service, grande com Mc Donald's em toda esquina, pequena de forma a encontrar todos amigos em todas as baladas, todas as noites. E voltou a ser grande simplesmente porque nunca deixou e nem deixará de ser.

Cidadão do mundo, popularmente conhecido como nômade, sofre com as mudanças da vida. Muda e monta novo acampamento em cada nova etapa da vida, descobre um pouco mais do novo, esquece um outro bocado acerca do anterior. A vida é sim uma caixinha de surpresas, como alguém certa vez já definiu o esporte bretão. Ela, que tantas vezes apronta, porque não o faria novamente, digamos, por vingança? "Não vem mais aqui, esqueceu de mim, não me dá mais atenção. Mudei pra que tenha que voltar e me conhecer novamente".

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A viagem do terno

Se você nasceu homem, provavelmente já me usou. Mulheres, salvo as advogadas, jamais me usaram ou usarão, a pesar de me apreciarem bastante. Em geral sou objeto de razoável valor, embora também esteja disponível em versões populares. Sou caprichosamente desenhado, cortado e alinhado, às vezes até mesmo de forma artesanal. Você, que não me usa para fins profissionais, recorre aos meus serviços apenas em ocasiões especiais. Além de um investimento inicial considerável, continuo demandando custos e cuidados na manutenção, lavagem e armazenagem, durante toda minha vida e da sua também, desde que você não engorde.

Como eventos especiais ocorrem em todo santo lugar, invariavalmente tenho que encarar uma ponte aérea. Esse é o momento que sinto calafrios, medo do futuro que se aproxima. É fato que algumas vezes bebo mais whisky ou vodka que gostaria, mas não costumo ficar nervoso quando estou me divertindo, ou melhor, me embreagando. É inevitável pegar um vôo vez ou outra, meu usuário é parte de um grupo seleto de convidados pro evento em questão, às vezes até mesmo é um dos padrinhos.

Voltando ao tema central desse meu desabafo, saindo da lavanderia vou direto pro saco e fico ali, no armário, esperando o momento do check-in. Não posso culpar meu dono, que fura fila com cartão ouro só pra me acomodar apropriadamente. Vôos domésticos não disponibilizam nenhum mísero cabide a bordo, não adianta insistir com comissária ou chefe de cabine. Aperta daqui e dali, pronto, estou aqui no bagageiro de um Boeing, Airbus ou Embraer.

Embora saiba que raramente vai acontecer, fico na esperança de que o passageiro da janela tenha o cuidado, a sensibilidade e a inteligência de um ser humano qualquer que entenda o conceito de empatia. Definitivamente não é o que ocorre. Mesmo tendo lugar marcado lá no final, o cidadão resolve deixar a mala ali na frente com receio de não encontrar espaço lá atrás. Nessa simples decisão, ele complica sobremaneira a situação da senhorita que vem logo depois, além de me amarrotar inteiro. Ela, por causa dele, vai ter que deixar a mala mais adiante, imagine o desembarque. Não há diálogo nem tão pouco preocupação, ele me amassa contra a mala ao lado e, em 2 segundos, acaba com 2 horas de trabalho da passadeira.

No vôo de volta, 2 dias depois e com uma baita cara de ressaca, me jogo de qualquer jeito ali no mesmo bagageiro, poltrona 3D ou 4C. Já não sinto a mesma tensão e pouco importa, a festa foi fantástica. Assim como meu companheiro, quero só um bom banho e cama depois que chegar em casa. Por incrível que pareça, aquele sujeito do vôo de ida não voltou, ninguém sequer me toca. Teria a Lei de Murphy um capítulo específico para ternos?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

amigos das antigas, amigos pra sempre

Na maioria das vezes eles não sabem quando vai acontecer de novo, apenas que vai demorar um bocado. Pode ser como o Natal, uma vez ao ano, mas quem garante que não será cruel como uma Copa do Mundo? Naquele momento de euforia, daquelas típicas de um adolescente, chegam a pensar que não, por que não semana que vem? Combinam Reveillon e Carnaval na casa de praia, fecham planos para uma viagem de moto pela Route 66, marcam um simples almoço na correria do dia-a-dia da terrível semana que ainda nem começou.

Contam, como se fosse hoje, as presepadas de uma vida deliciosamente vivida no fim do milênio passado e no início deste. Os novos, recém ou pseudo agregados, devem pensar que os papos são repetitivos, as histórias chatas e sem graça, a mesma ladainha do churrasco passado. Se relembrar é viver, não deveriam achar e sim ter certeza, pois são exatamente as mesmas, por vezes em versões menos detalhadas quando a memória hesita ou falha. Ver poesia naqueles causos tantas vezes contados não é simples quanto possa parecer, é preciso ter vivido, experimentado, compartilhado, jogado bola às segundas-feiras, além de ter religiosamente frequentado a Zoff nos finais de semana.

A vida estrategicamente os separa, quiçá de forma a terem idéia do que realmente necessitam como combustível para continuar vivendo. Fulano sai a desbravar horizontes outrora distantes, Ciclano inicia um novo negócio, enquanto Beltrano levanta acampamento por um grande amor. Esses percalços são pequenos frente a tantos outros que a vida proporciona, que tentam incessantemente fazê-los esquecer da importância dos encontros, conversas e gargalhadas sem vergonha de ser feliz. O esforço de cada um será cada vez mais o fator decisivo para que tais momentos perdurem, aconteçam ao menos mais uma mísera vez, nem que seja uma pizzinha aos 45 minutos do segundo Domingo do mês.

O final da festa também é sempre o mesmo, melancólico - "Vamos combinar mais vezes!", "Me liga pô!", "Passa em casa quando estiver por aqui". Sabem que a próxima vez ocorrerá apenas quando outro evento chegar, aniversário do Ciclano, Sábado gourmet ou quando o churrasco finalmente vingar, provavelmente só ano que vem. A essa altura pouco importa, todos acabaram de renovar o estoque do sentimento confortante de serem amigos assim, já não restam mais dúvidas que haverá uma próxima.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Conto ou "não" conto

Ele havia estudado o dia inteiro, derivadas pela manhã na escola, eletricidade a tarde no puxadinho dos fundos da casa. Por volta das 18h, foi às aulas da noite, afinal teria o maior desafio de sua vida até então em poucos meses, o temido vestibular.  Era um dia de semana, uma terça ou talvez uma quarta, próximo da meia noite. Banho tomado, lanche carinhosamente preparado pela avó na geladeira, jornal da noite visando melhoria dos conhecimentos gerais e atuais, foi à sua cama, também delicadamente arrumada por aquela que na ocasião tinha o papel digno de mãe.

Deitou e como de costume pensou, na vida. Largar família, amigos, e aos 16 anos ir pra bem longe de casa atrás do futuro realmente não era tarefa fácil, mas quem falou que seria? O investimento dos pais e de toda família, financeira e emocionalmente. Era o primeiro filho a sair de casa, a mãe devia sofrer e chorar sua ausência com certeza. Não tem a exata noção, mas 10 ou 15 minutos depois de deitar um feixe de luz entrou pela fresta da porta, era sem dúvida luz proveniente da sala de televisão adjacente à grande sala de jantar. A chance de alguém ter levantado pra ver Jô Soares, Goonies ou Cine Privé era praticamente nula.

Era sua avó, com semblante que o preocupava sobremaneira. Tendo dito poucas e desanimadoras palavras ela o guiou até a suíte do casal, onde o avô respirava com muita dificuldade. Tentava puxar o ar, mas ele não vinha. Tapas nas costas e álcool pra desobstruir as vias respiratórias eram técnicas em vão no momento. Não havia tempo pra pensar ou planejar nada, carregou o gigante barbado no lombo de adolescente rumo ao carro que já o aguardava na porta.

Daí em diante a história foi longa, sofrida, e repetitiva. Idas e vindas ao hospital, visitas individuais na unidade de terapia intensiva, testes e mais testes sem precisão ou sem sucesso. Pedras na visícula? Chegaram a dar risada delas em um pequeno saquinho, como se comemorassem o fim de um problema que de fato era muito mais sério. Algumas viagens de familiares depois, indagações a mil, visitas constantes no caminho de volta da escola até que, muitos meses depois, veio o cruel diagnóstico de câncer no pulmão. Fumara muito durante toda a vida, inclusive cigarro de palha sem filtro, devia ter ao menos a ver com aquela proliferação de células desenfreada.

O avô tinha 70 e poucos anos, era forte como uma rocha, fruto de uma vida vivida no interior, na roça mesmo. O cabelo resistia em cair, ele resistia em desistir de viver. A decisão da família foi a de não contar a verdade, deixariam ele viver os últimos dias, meses ou anos da vida sem o peso de saber. É improvável que seu corpo não tenha lhe confidenciado sobre a enfermidade, mas tudo bem. O objetivo foi atingido e, contrariando especialistas, vivera mais tempo que o esperado. Tempo suficiente para tomar novamente seu whisky escocês, jogar seu buraco, degustar uma pinguinha e celebrar o típico Natal da grande família.

Por aquelas ironias do destino dignas de um drama "hollywoodiano", o tempo extra foi suficiente para um último e doloroso pesar antes do próprio fim. Teve que se despedir daquela que lhe dedicou a vida inteira, em especial nas grandes dificuldades dos últimos tempos. Uma súbita e inexplicada interrupção nos dutos do intestino tirara a vida da lutadora companheira, pouco mais de uma semana depois da internação. Ele, já bem debilitado com o câncer depois de algumas metástases, se despedia com um beijo na testa de carinho e gratidão. Aquele que esteve ali anteriormente apenas para estudar, presenciava um dos momentos mais marcantes de sua vida. A primeira sensação real de perda, o primeiro choro de dor profunda, daqueles que deixam sequelas, que não se esquece, que se aprende a conviver.